Retrato dela

Vive às cegas das convenções que delimitam o certo e o errado, o coerente e o incoerente porque o seu olhar se embacia com visões de gente a vogar pelo mundo, como se dançassem eternas valsas em salas demasiado amplas para estarem lotadas. Sonha como se acordasse num fulgor de vida a cada momento no escuro e pudesse ainda e a cada dia fazer diferente o seu próprio corpo. Repete palavras que ninguém vai ler porque tantas e tantas vezes se sente insoletrável e quando a traduzem para outra língua parece que se esfuma e é como se imigrasse para fora da alma de malas e bagagens. Gosta de se perder em conversas inúteis e de ensaiar passos desajeitados porque isso lhe dá matéria para acender o coração do riso e fá-la rir ao coração dos outros. E sabe que ganha cada dia nisso: no choro e no riso. Como dizer um pranto de riso e uma risada de lágrimas- ainda não encontrou a fórmula mágica para estas e outras questões mas jura que a alquimia é possível. Porque tudo no seu mundo se transfigura quando há música e sabe que poucas pessoas entendem a importância disso na sua vida. E pouco sabe acerca das coisas que interessam e com que a maioria das pessoas se detêm e não porque se julge à margem ou bestial demais para se encaixar nas caixas, só porque tudo na sua vida parece provisório e em suspenso e são precisas tantas palavras para explicar que tem medo até ao fim da linha.

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