Arte em pó

Quando penso em mim pelo lado do avesso encontro uma pessoa estranhamente crédula. Fantasiosa. Delirante. Vestida de nuvens. De olhos turvos pela purpurina das ilusões e utopias que gosto de trazer para a vida. Desfilo meio sem jeito porque esse é o meu jeito de contar malmequeres no chão. E sustenho aquele riso aflito, pouco espontâneo, nada previdente, de quem tem uma criança gigante nas mãos. Mãos, efectivamente pequenas, inolvidavelmente marcadas pelo artesanato de coisas que invento para por a cabeça a mexer. Às vezes rio de contentamento por estar só nesta maneira frágil de olhar a vida e ter os outros. Às vezes brinco inadvertidamente com essa maneira de oscilar os gráficos com a minha estatística de humor pouco perene. Às vezes, muito às vezes, penso porque não serei de outra maneira.
Ontem corri para um sítio onde avisto o mar perto. Ontem cruzei as pernas sobre a ponte vermelha. De olhos postos nos triângulos e nas linhas de pontos infinitos que pintam o tracejado desse colosso sentimental que serve para ligar duas margens. A salvo- finalmente a salvo- disse a magnitude de um gesto tão feito à medida do que eu sou : a magnitude de descerem à nossa altura simplesmente para falarem connosco. Escreveria todo um argumento de um filme a partir desse gesto simples. E paro para ver quando essa pessoa o faz. Se saber que o faz ou porque o faz. Volto aos sítios por razões como esta. Pelo riso de criança. Pelos passos de criança. Pela forma como sorri ao ver-nos chegar.
Hoje faço anos e ponho uma música a tocar para dançar no escuro porque as chamas de quem sou incendeiam-me para longe.
"Blue, here is a shell for you. Inside you'll hear a sigh. A foggy lullaby..."*
*CPower