Uma canção que alude ao equilíbrio de grave com agudo. Uma sonoridade sublime de tipo quase toca-e-foge que chega, de mansinho, como se fosse uma bétula desabrochando. Uma musicalidade que surge porque alguém lá atrás toca, com precisão cirúrgica, uma espécie de xilofone encantado e que se fosse um chá, certamente seria chá branco. Se pudesse, bebia música ao jantar só para sentir cada nota, em cócegas, pela boca em direcção ao umbigo, onde se alojam (estou certa) numa magia circular, e por isso é que eu penso ter uma concertina no ventre e ser-me tão difícil não me sentir tocada.
Jóia. A geometria das formas e a forma geométrica como as pessoas se sentam numa cadeira em palco é algo de absolutamente saboroso. Não pude deixar de me sentir absorvida pelo carácter do que estava na minha presença. Uma forma singular de estar entre as pessoas. Uma forma de estar em casa, uma forma de ser de casa, alguém que está e sê, sem notas à margem nem explicações adicionais.
Como será merecer um sorriso naquele rosto? Do que se lembrará, à noite, de noite em si, que lhe suba à boca e lhe apeteça dizer? Para mim, aquela ocupação de espaço é uma invasão aos sentidos, um morder de lábios, um labirinto perfeito de curvas e contra-curvas de uma dignidade respeitável porque honesta e assumida.
Um modo de chorar a guitarra e contorcer-se na ardilosa e rendilhada forma de som a chegar até nós. Reparei no modo tão particular como esta pessoa olhava o alto e se sentia, meu deus, um em muitos. Humanidade: em cada trejeito. Olhei-lhe a guitarra e vi todos os Homens a passarem à minha frente e com eles, míseros pedaços de tudo quanto nos faz felizes na alegria e na desgraça. Por mim, dormia lá, nesse sítio, em que alguém tocou e eu vivi.
Conheço gente de todas as flores. Girassóis apontados ao sol. Tulipas em cores ardentes e texturas flamejantes. Orquídeas certas de si em trajes menores. Rosas chá de bergamota e rosas dançando em beergrass. Brincos de princesa como pêndulos de um destino às vezes fraco outras forte num sabor a baunilha que conhecemos durante toda a vida. Gerberas a ensandecer o espaço onde eu fui colher a cor. Narcisos perfeitos no espelho da água reflectindo-me incessantemente. Lírios meus, das cores que a mim mais me fascinam e que eu gosto de ver na cama onde me deito. Copo de leite em flor, daquelas que sempre nasceram à porta da minha casa e que a minha mãe sempre adorou. Buganvílias dos meus sonhos silvestres e dos meus dias solares e que me remetem para o Sul. Amores-perfeitos que eu pego com uma mão só para sentir o cheiro. Amarílis-arco-íris no céu em que vivo enquanto nuvem. Pessoas-orquídea aspidistra nicolai, que com o preto, nunca se comprometem. Boca-de-leão em gente que se contempla como a flor. Angélicas concentradas ou margaridas que irradiam luz. Flores do campo pela cidade. E pétalas acabadas de colher. Gente-azedas que sugo até ferver. Gente-hortênsias de uma brancura alva difícil de esquecer. Gente sublime de flor de pessegueiro. Papaver, simples e autêntica: tão leve que dança ao vento como nenhuma outra.
E em cada flor, seu perfume, como na canção primeira. E em cada perfume deixado, uma ilha inteira para onde navegar. Voar em sentido oposto.
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