Escrevendo de noite sinto-me. Fecho os olhos para ver. Porque a cegueira talvez seja isso: o oposto de ter tempo e de prestar atenção. E sinto-me grata também por isso. Por arranjar tempo para os desvarios contentes e para as imagens mais banais que passam na sessão da meia noite na minha cabeça. Gosto de, de vez em quando, sair de casa a horas improváveis e sentir. Cantar até chegar ao destino. Inverter o sentido das coisas. E inventar símbolos para as coisas de que gosto. Rindo ao desbarato e emudecendo quando alguma coisa está para além das minhas parcas palavras. Hoje sonhei que era em Évora. Era qualquer coisa. Não importa bem o quê. Era, com tempo e perfeitamente enquadrada na esquadria das casas caiadas de branco. Como será amar uma cidade que não esta?
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